2015-05-16

O QUE VOCÊ É... UM RIO FLUENTE OU UM LAGO ESTAGNADO?


Um Rio Fluente ou um Lago estagnado

A existência humana para algumas pessoas é  como um lago estagnado, enquanto um rio fundo, cheio de vida e força, corre rápido ao seu lado. O rio corre constante, profundo e largo, mas o lago está parado coberto com espuma e detritos, isso  porque não está ligado à vida do rio, não flui, nem há peixes nele.
           Essas pessoas cavam um pequeno lago para si próprias, distante da corrente  da vida, e nesse pequeno lago estacionam, morrem  aos poucos, vitimas da estagnação, decadência e do desperdício de vida. Ou seja, todos desejamos viver, mas nos defendemos da vida. Isso se reflete no nosso desejo de que tudo que gostamos seja permanente. No fundo temos certa aspiração de durar para sempre, e queremos desfrutar de prazeres infindáveis. Cavamos um pequeno buraco e levantamos barricadas para supostamente proteger nossas famílias e nós mesmos como se isso fosse possível. Nos apegamos as nossas ambições, nossas crenças, valores, nossos medos, nossos deuses, nossas várias formas de adoração, e lá morremos, deixando passar a vida – que é impermanente, que muda constantemente,  que tem profundidades enormes, e é tão rápida.
                Já notaram que ao se sentarem em silêncio na margem de um rio,podem ouvir a canção dele – o marulhar da água, o som da correnteza passando? Existe sempre  um movimento extraordinário na direção do mais amplo e mais profundo. Mas, no pequeno lago estagnado não há nenhum movimento. E, se observarem, verão que isso é o que muitos de nós fazemos, ou escolhemos para nós: pequenos lagos estagnados, uma existência isolada, fora da vida. Dizemos que nossa existência-lago é certa e inventamos uma filosofia negativista para justificá-la. Desenvolvemos teorias sociais, políticas, humanitaristas, econômicas e religiosas para apoiá-la e não queremos ser perturbados porque, vejam, o que buscamos é um senso de permanência. Buscamos o impossível, e nos tornamos prisioneiros do medo de viver.
                Buscar a permanência significa desejar que as coisas fiquem como estão, que o aprazível continue indefinidamente, e que aquilo que não é agradável termine o mais rapidamente possível. Desejamos ter sucesso e reconhecimento e que nosso nome e nosso gene continue a existir em nossos filhos por intermédio da família, da propriedade, etc. Desejamos um senso de permanência em nossos relacionamentos, em nossas atividades, o que significa que estamos buscando uma vida duradoura, contínua, no lago estagnado, Não queremos que ocorra qualquer mudança real e significativa. Por isso, construímos uma sociedade e leis que nos garantam a permanência da propriedade, do nome, da fama, etc.
                Mas, vejam, a vida tem suas próprias regras, e uma delas é a impermanência. Como as folhas que caem de uma árvore, todas as coisas vivas são impermanentes, nada perdura; existe sempre a transformação,  e a morte no final. Já notaram como é bela uma árvore contra o céu, com os galhos desfolhados? Todos os galhos estão delineados, e em sua nudez existe um poema, um apelo, uma canção. Cada folha se foi, e ela está aguardando pela primavera. Quando esta chega novamente, enche a árvore com a música do farfalhar de varias novas folhas, que no outono cairão e serão levadas; assim é o moto continuo da vida.
                Mas, não queremos nada desse tipo, queremos o comodismo das certezas. Desenvolvemos apegos, e nos apegamos aos filhos, aos amigos, às tradições familiares, à sociedade,  e as pequenas virtudes porque desejamos a permanência e a segurança. Por isso, temos medo de viver e de morrer.  Tememos perder as coisas que temos e conhecemos. Mas a vida não é o que gostaríamos que ela fosse; a vida não é como ela é e ponto final. Sofremos por nos recusamos a aceitar a vida como ela é de fato.
                O fato é que a vida flui  como o rio; move-se interminavelmente, sempre buscando, explorando, empurrando, transbordando e cobrindo as margens, fertilizando e penetrando em cada fissura com sua água vivificante. Nossa mente resiste a fluidez, tende a fixações e a imutabilidades. A mente acha que é perigoso, arriscado viver em um estado de impermanência, quer segurança; por isso, constrói uma parede em torno de si: a parede da tradição, das certezas, da religião organizada, das teorias políticas e sociais definitivas. Família, nome, propriedade, as pequenas virtudes que temos cultivado – tudo isso está dentro dessas paredes, distante da vida. A vida é movimento,  é mutação constante, e como as águas de um rio tenta incessantemente penetrar, romper as paredes das barreiras. Os deuses encarcerados dentro das paredes e barricadas que criamos são falsos, e a moral, a ética, os escritos e filosofias aprisionados não têm significado, isso porque a vida está além deles.
                Portanto, a mente que não tem paredes, não é afligida pelas próprias aquisições, acúmulos,sabe que conhecer modifica o conhecido e relativiza o  próprio conhecimento; uma mente que está disposta a surpreender-se e a questionar-se e portanto transgride paradigmas estratificados – para essa mente a vida é uma aventura extraordinária.  Outra coisa, muitos de nós desejam um local de repouso um lugar retirado de tudo e todos, um lugar para ficar em paz; como se paz não fosse uma conquista interior, um patamar de onde partimos para interagir com a vida. Por medo do desconhecido e inesperado exigimos a permanência, e criamos uma cultura e uma civilização baseada nessa exigência, inventando religiões e seitas, códigos de conduta e valores artificiais. E lideres que não são lideres, mas somente projeções e expectativas dos nossos próprios desejos e convicções.
                Uma mente que está buscando  permanência logo fica estagnada; como aquele lago próximo ao rio, logo se torna repleta de distorções, de aflições e sofrimento. Apenas a mente que não tem paredes, nem barreiras, que se move livre no fluxo da vida, sempre criando, explorando mistérios, buscando o novo com entusiasmo e fé, apenas essa mente pode ser feliz,  porque encontrou o seu eixo, e estabeleceu a conexão com a alma.  Quando isso for compreendido toda a vida será transformada, o relacionamento com o mundo, com o vizinho, com a esposa ou marido terá um significado totalmente diferente. Então, reclamaremos menos e agradeceremos mais. Viveremos intensamente, e não fugiremos dos desafios tentando preencher nosso vazio com  coisas materiais,. Se compreendermos isso com clareza, teremos começado a perceber o presente extraordinário do que é a vida. E daí experimentaremos  o florescer da felicidade. Os esforços de uma mente que está buscando tranquilidade no lago estagnado da segurança, da permanência, poderão levar somente à infelicidade. A Verdade, Deus,, ou como desejarem chamar, está além da estagnação do lago.
             A busca por si mesmo, por Deus, pela verdade, pela sensação de estar vivo, a busca de algo além das invenções e truques da mente, significa ter a experiencia de  algo, vivendo nele, sendo ele: isso é sagrado, a sensação de comunhão com a vida, sentir aquele amor libertador, que é como o rio, movendo-se interminavelmente. Mas,  só poderemos constatar que isso é possível quando deixarmos o lago que cavamos  e mergulharmos no rio da vida. Então, a vida mostrará uma maneira surpreendente de cuidar de nós, de nos orientar e preencher nossas necessidades, isso porque não haverá restrições de nossa parte. A vida será uma parceira fiel,  e irá conosco para onde quisermos, porque passaremos a ser parte dela; então, não haverá mais problemas de insegurança, nem de medo de ousar transgredir padrões,  e muito menos do que as pessoas dizem ou não sobre nós, e  essa liberdade é a maneira de reconhecer e apreciar a beleza da vida e reverenciar o divino em nós e nos semelhantes. Nosso olhar descontaminado perceberá que a natureza e toda a criação é a roupagem externa de Deus.
Marilu Martinelli