2014-12-14

O EGO.



O ego

É um complexo de elementos numerosos.  No entanto, forma uma unidade bastante coesa para transmitir a impressão de continuidade e de identidade consigo mesma.  Carl Gustav Jung, dada sua composição complexa feita de muitos elementos, freqüentemente usava a expressão complexo do ego, em vez de, simplesmente, ego.  O ego é uma coleção de opiniões que temos a respeito de nós mesmos.  O ego é o modo como descreveríamos a nós mesmos.  É uma entidade que criamos e que nos faz sentir certos e seguros.  Como uma máscara que usamos para o mundo, ela nos protege contra nossos medos condicionados. Às vezes, no entanto, as paredes do ego causam mais dor que proteção.

O crescimento pessoal e a evolução espiritual, no caminho da auto-realização, impõe que: primeiro formemos o ego; em seguida o compreendamos; e, finalmente, o transcendamos.

O ego se desenvolve na infância.  No início, a criança pensa que ela sua mãe são a mesma coisa.  Mais tarde ela começa a desenvolver o senso de separação.  Os "nãos" de uma criança de dois anos, que algumas vezes irritam os adultos, são uma mostra de um ego se desenvolvendo.  O papel fundamental do ego é criar a nossa própria singularidade, uma identidade através da qual nos expressemos.

O ego é uma combinação de impressões.  Ele contém comportamentos que levam a intimidade, a produtividade e a criatividade.  Contém outros comportamentos que se constituem em coleção de paredes erigidas para autoproteção, para afastar feridas e manter a segurança.  Às vezes, criam-se paredes inapropriadas que levam ao sofrimento. Por exemplo, alguém que, temendo o abandono, se fecha para a experiência do amor.

O ego expressa as suas inseguranças julgando tudo.  Por esta razão, Joan Borysenko, em seu Cuidando do Corpo, Curando a Mente, chama o ego de "o Juiz".  O ego tenta assegurar a felicidade mantendo tudo fortemente sob controle.  Ele divide o mundo em categorias rígidas: o bem e o mal; o positivo e o negativo; a favor e contra; o claro e o escuro; e outras.

Às vezes cegamente, procura o bem e evita o mal. É sede freqüente de ilusões.  A exacerbação do ego – aquilo que eu chamo de "hipertrofia do ego inchado" – está na base do comportamento egoístico, do egocentrismo e da egolatria. 

Psicólogos orientais afirmam que a tarefa do adulto é destruir o ego, quebrando velhas defesas contra o medo e a insegurança.  Estas defesas alimentam várias reações e posturas que adotamos para parecermos pessoas aceitáveis.  (cuidado com a interpretação - não é  eliminar totalmente o ego, ou fechar o chakra básico, como tenho visto em algumas leituras dos ensinamentos.  Cada parcela do nosso ser tem uma função perfeita, que se manifesta de forma perfeitamente alinhada, quando estamos em equilíbrio.  Sem uma parcela, ficamos sem uma perna, ou sem um braço.  Há que saber discernir - o que precisa ser trabalhado é o excesso de defesas - como aliás está no texto, porém temos o impulso de ler a primeira frase e abandonar o restante - que não nos permite seguir por um caminho onde alguma vez fomos feridos ou machucados)

O ego é freqüentemente comparado a uma máscara (ou máscaras) que usamos para nos mostrarmos ao mundo.  Na maior parte das vezes, nos tornamos inconscientes deste processo e pensamos que a máscara é o que realmente somos.  É fácil reconhecer a máscara do ego com suas defesas, que mantêm afastada a ilusão da dor.  O ego – o Juiz – tem uma motivação primária: procurar o prazer e evitar a dor.  Para o ego o bem é a segurança e o prazer, e o mal é o medo e o perigo.  Em todas as defesas do ego está presente a preocupação com a sobrevivência.

No processo de amadurecimento do ser humano, todos os componentes da mente se unem numa síntese para o amadurecimento da personalidade para formar um indivíduo específico e inteiro.  Quase sempre o processo desta síntese não é harmônico, mas conflituoso.  Carl Gustav Jung chama a este processo de amadurecimento de "individuação".  O ser humano é capaz de tomar consciência deste processo de desenvolvimento e  influenciá-lo.  O consciente entra em confronto com o inconsciente.  Esta confrontação, de acordo com Jung, "é o velho jogo do martelo e da bigorna: entre os dois, o homem, como o ferro, é forjado num todo indestrutível, num indivíduo.  Isso, em termos toscos, é o que eu entendo por processo de individuação".

O processo de individuação não é um processo linear, mas uma circunvolução que conduz a um novo centro psíquico.  Este novo centro é o Self (o Si mesmo) sobre o qual tratarei daqui a pouco.  Quando o consciente e o inconsciente vêm ordenar-se em torno do Self , a personalidade se completa.  O Self será o centro da personalidade total, como o ego é centro do campo consciente.  A preliminar da individuação será o desvestimento daquilo que Jung chamou de persona. 

Os gregos antigos chamavam de persona a máscara que os atores usavam de acordo com o papel que iriam representar.  Muitas vezes, para estabelecer contatos convenientes com o mundo exterior, o ser humano assume uma aparência que não corresponde a sua essência, o seu modo de ser autêntico. 

A pessoa se apresenta mais como gostaria de ser ou como os outros esperam que ele seja, do como ela é realmente.  A esta aparência artificial é que Jung chamou de persona.  O militar, o professor, o médico, o executivo, entre outros profissionais, comumente mantêm uma fachada de acordo com as convenções sociais, na forma de vestir, de falar e até no gestual.  A psique coletiva oferece recortes para a constituição dos moldes da persona.

Machado de Assis, em seu conto O Espelho, ilustra muito bem o que seja persona.  Machado narra o caso de um jovem que tendo sido nomeado alferes da guarda nacional, tanto se identificou com a patente que "o alferes eliminou o homem".  Quando, por especiais circunstâncias, ele foi obrigado a ficar sozinho numa casa de campo onde não havia ninguém para prestar as mesuras, louvações e marcas de respeito devido ao alferes, sentiu-se completamente vazio.  Ele via esfumada, sem contorno nítido, até sua imagem no espelho.

Este estranho fenômeno levou-o ao pânico.  Desesperado lembrou-se de vestir a farda de alferes.  Neste conto, Machado apresenta a teoria de que o homem tem duas almas: "uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro".  Vestido diante do espelho, o alferes observou: "O vidro reproduziu então a figura integral, nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior".

Quantos de nós já se viram em semelhante desespero quando se viram despidos das honrarias próprias de seus cargos ou funções?  Quanto mais a persona se colar à pele do ator, mais traumática será a operação psicológica para despi-la.  Quando é retirada a máscara que o ator usa nas suas relações com o mundo, aparece uma face desconhecida.

Olhar-se de frente, despido de toda "maquiagem" de que nos revestimos é um ato de coragem.  Enfrentaremos o nosso lado escuro onde habitam todas as coisas que nos desagradam em nós, ou mesmo que nos assustam.  É aquilo que Jung chamou a nossa sombra. A sombra faz parte de nossa personalidade total.

Fausto Jaime
Trechos do livro 'A Revolução da Aprendizagem'